A Finep e a Ética nas Negociações

A ética nas negociações não é apenas um adorno, ela tem consequências concretas. Sua ausência deteriora relações, prejudica a reputação e reduz as oportunidades de construir bons acordos[1].

A relação da Finep com seus empregados não é uma relação que se encerra com uma negociação, ela permanece até o empregado se desligue ou se aposente. Em uma relação continuada como a nossa, o desgaste da confiança afeta o clima organizacional e compromete as negociações futuras[2].

A cada dois anos, construímos coletivamente nossa pauta de reivindicações e elegemos representantes para a negociação do Acordo Coletivo de Trabalho. A AFIN participa intensamente desse processo. Essa construção democrática exige respeito, transparência e compromisso de todas as partes.

Entretanto, a postura da Finep não tem respeitado o processo democrático e valorizado essas premissas. Em vez de buscar soluções, ou pelo menos avanços, por meio do diálogo e da construção conjunta, a empresa recusa praticamente todos os pleitos, apresenta justificativas que não resistem ao exame dos fatos ou sequer fundamenta suas negativas. Quando alega falta de tempo para resolver os problemas, ignora que a maior parte dessas reivindicações está na pauta há mais de uma década.

Ao final, apresenta uma proposta insuficiente, que mantém sem solução problemas acumulados ao longo dos anos, e exige pressa dos empregados para aprová-la.

É importante destacar que a pauta do ACT não se limita a reivindicações econômicas ou a medidas voltadas diretamente aos empregados. A pauta do ACT inclui medidas voltadas à melhoria do ambiente de trabalho, mas também propostas que buscam aprimorar a gestão e fazer a Finep funcionar melhor. Ainda assim, mesmo pedidos que deveriam ser do interesse da própria Finep atender, são negados com justificativas insuficientes.

A esse quadro somam-se os graves relatos, recorrentes a cada negociação, de pressão da Finep sobre ocupantes de cargos comissionados e profissionais de RH para que apoiem a proposta da empresa e pressionem os empregados e seus representantes a encerrar as tratativas, mesmo sem resolução de questões críticas. Os relatos também apontam constrangimentos para que esses profissionais mobilizem outros colegas a fazer o mesmo, tanto durante as negociações quanto em eventual votação.

Nesse contexto, os empregados são expostos a informações distorcidas e argumentos falaciosos que alimentam o medo e a ansiedade, criando a percepção de que serão prejudicados caso não aceitem qualquer proposta apresentada. Que se um acordo não for fechado rapidamente, os empregados correm o risco de ficar sem o ACT por conta de uma possível transição de governo.

Essas mensagens reforçam a pressão para que os empregados cobrem de seus representantes o encerramento prematuro das negociações e a aceitação de um acordo que não atende às suas necessidades.

Mas nada justifica tais alegações. É preciso destacar que a empresa já recusava nossos pleitos antes das eleições. Também é importante lembrar que, na negociação de 2018, aceitamos um ACT rebaixado em um ambiente no qual muitos empregados acreditaram que essa concessão seria necessária para evitar a extinção da Finep. No ano seguinte, porém, enfrentamos ameaças concretas à continuidade da empresa. As concessões feitas não nos protegeram dessas ameaças.

O uso da hierarquia para influenciar votos, especialmente em funções de livre nomeação e exoneração, pode ser percebido como ameaça velada. Cada empregado, inclusive quem exerce função comissionada ou trabalha no RH, tem o direito de apoiar ou rejeitar a proposta livremente. A posição na assembleia não pode se transformar em teste de lealdade à chefia. Cabe à empresa apresentar seus argumentos e assegurar que sua estrutura hierárquica não seja utilizada para constranger votos ou manifestações.

A ética é importante, e a falta dela não pode ser tolerada. Por isso, não podemos aceitar a distorção de fatos e a criação de narrativas destinadas a provocar medo e ansiedade no corpo funcional. A ansiedade pode levar negociadores a encerrar tratativas prematuramente e obter resultados piores[3]. O uso do engano agrava esse quadro, pois compromete a confiança necessária para construir soluções duradouras[4].

É importante frisar, ainda, que a demora na conclusão das negociações está diretamente relacionada à postura da Finep, que não apresenta soluções para problemas históricos nem fundamenta adequadamente suas negativas. A responsabilidade por essa demora não pode ser transferida aos empregados ou aos seus representantes.

Por tudo isso, é importante que os empregados apoiem a sua representação, composta por negociadores experientes, empenhados em garantir o reconhecimento da empresa em relação às problemáticas trazidas à pauta, e construir as soluções possíveis. E que tem pleno discernimento situacional para avaliar as desafios e conjunturas, e para entender o momento em que o acordo deva ser celebrado.

A AFIN cobra da empresa celeridade, respostas fundamentadas à pauta, propostas que reconheçam e enfrentem os problemas apresentados, o cumprimento dos compromissos assinados em ACTs anteriores e respeito à autonomia dos empregados e de seus representantes. Acima de tudo, a AFIN cobra ética da Finep. A qualidade do acordo depende também da integridade do processo que o produz.

Juntos, somos mais fortes!

 

[1] REITZ, H. Joseph; WALL JR., James A.; LOVE, Mary Sue. Ethics in negotiation: Oil and water or good lubrication? Business Horizons, v. 41, n. 3, p. 5–14, 1998.

[2] Ibidem.

[3] BROOKS, Alison Wood; SCHWEITZER, Maurice E. Can Nervous Nelly negotiate? How anxiety causes negotiators to make low first offers, exit early, and earn less profit. Organizational Behavior and Human Decision Processes, v. 115, n. 1, p. 43–54, 2011.

[4] SCHWEITZER, Maurice E.; HERSHEY, John C.; BRADLOW, Eric T. Promises and lies: Restoring violated trust. Organizational Behavior and Human Decision Processes, v. 101, n. 1, p. 1–19, 2006.

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